Era 12 de setembro.

No fim da rua havia uma cabana bem velha, mas não muito diferente da senhora que nela morava. Todos os dias ela levantava cedo, caminhava na avenida por detrás do colégio, se exercitava na praça, comprava seu café da manhã e voltava ao seu recinto. Todos os dias esse ritual era sagrado. Morava sozinha. Era rica. Não gostava de vizinhos. Tinha raiva do mundo e nojo da sociedade. Não fazia questão de nenhuma pessoa específica. Ninguém sabia sua história ou há quanto tempo morava naquela cabana. A única certeza era a sua mágoa profunda por algo que ainda era mistério.
Um dia, em uma de suas caminhadas perto do colégio avistou um garoto perto de um cercado, roubando algumas flores em um canteiro junto de um jardim ao lado de uma casa. A senhora o ignorou de primeira, mas o garoto sorridente como criança pediu que não o denunciasse pois aquele pequeno crime era por uma boa causa. Sua mãe tinha pouco tempo de vida e há dias vinha juntando flores de vários canteiros para fazer um buquê e levar como presente ao hospital antes dela partir. A senhora o questionou porque não passava mais tempo com sua adoentada mãe em vez de perder tempo caçando rosas. O garoto por sua vez, respondeu que por sua mãe não poderia fazer mais nada, porém ainda poderia cuidar do amor que refletia na beleza que seu sorriso ainda irradiava todas as vezes que riam juntos. Ele contou a senhora que sempre achou que as pessoas fossem como as rosas — cresciam, viviam entre outras rosas mas todas estavam destinadas a morte. Umas arrancadas, outras cortadas, porém nunca perdiam a essência do seu charme. Queria presentear a mãe com várias flores pois queria que ela partisse como uma — mesmo sem vida, permanecesse com a essência do seu charme. A senhora foi embora para sua cabana sem dizer nenhuma palavra.

Dois meses depois, naquele mesmo cercado enquanto passava percebeu que haviam muitas pessoas formando um círculo em volta de algo que chamava atenção.
Algumas viaturas.
Duas ambulâncias.
Um carro batido. Logo notou que havia acontecido um acidente. Demorou alguns instantes para reconhecer que o corpo estendido era do garoto das flores.

Hoje, depois de dois anos, no lugar daquele cercado existe uma floricultura. Ela nunca soube se ele conseguiu fazer o buquê antes de sua mãe partir, mas, todos os anos no dia 12 de setembro, a dona sorridente como criança distribui flores de graça.


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