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Já faz tanto tempo que sentamos aqui pela primeira vez.

Hoje é uma quinta-feira de Maio. Eu não queria ir embora, decidi entrar no shopping para dar uma volta. Comprei um ingresso para assistir Rei Arthur, na sessão das nove e meia.

Dá pra ver aqui de cima olhando pelo vidro, o termômetro acusando 20 graus agora as oito e pouco da noite, o dia dos namorados é só mês que vem mas parece que será amanhã de tanto casal que eu vejo ao meu redor. O garoto da frente acabou de jogar um papel na garota que está com ele e quase me acertou. Me pediu desculpa meio constrangido. Atrás dele, tem um casal de garotas que estavam se beijando apaixonadamente quando eu me sentei, mas assim que eu liguei o notebook e olhei por cima da tela, uma delas chorava de soluçar. No começo achei que ali naquela mesa, entre uma mordida no big-mac e um gole de coca, estava acontecendo a famosa "dê-erre", mas ela agora está sorrindo e abraçando a culpada-de-suas-lágrimas. Eu sempre venho nesse shopping e todas as vezes escrevo nesse mesmo lugar onde estou agora (essa é a primeira que estou com um notebook), mas nunca vi essas garotas por aqui e provavelmente nunca mais eu vou ver elas. Mas confesso que senti uma empatia enorme naquele abraço delas, foi tão apertado-sincero-sorridente que deu vontade de me enfiar entre elas e estragar tudo. Elas foram embora. Suspiro. Alguém uma vez me disse que isso também é inveja, mas aquela inveja com reflexo de admiração, quase inofensiva quando sentida no momento e pela pessoa certa. Atrás de mim enquanto digito consigo ouvir vários estralos de línguas dançando entre as bocas que pelo som duvido que sejam só duas. Não me atrevo a olhar pra trás. Do meu lado esquerdo consigo escutar um casal de amigos de meia idade conversar como se fossem garotos da adolescência. Estão indo embora. Ela está cansada e eu sinto que ele não quer ir embora pois está morto de curiosidade para tentar ler sobre o que eu estou escrevendo agora. 

Minha ex tinha me mandado mensagem, mas minha bateria acabou e ela deve estar achando que eu não quero responder e estou fazendo a do cara orgulhoso. Mal sabe ela como eu tô por dentro. O garoto que ainda está na minha frente (o que jogou o papel) ainda está tentando beijar a garota mas eu to vendo daqui que ele não sabe realmente como fazer isso. Lembra do casal de garotas? Acabou de sentar mais dois casais na mesa que elas estavam e agora conversam sobre risadas bem volumosas. A visão daqui lá pra rua é muito confortável. Dá pra ver os faróis piscando, trocando de cor tão rapido quanto os carros trocando as marchas para chegarem rápido em suas garagens e entregarem seus donos até suas camas após um dia longo e cansativo. Essa cidade não para. Sinto que faço parte dela, aqui, São Paulo é minha casa. Por isso tenho muita vontade de sair dela, voar em outros lugares, escrever em outras mesas e observar outras pessoas conversando, namorando, beijando, abraçando, jogando papel para não ficar preso no silêncio constrangedor enquanto ela olha ele.

O céu tá nublado, meu refrigerante acabou de terminar e ainda estou meio úmido da chuva. Meu filme já já começa e estou com uma tremenda saudade de você. Eu sei que se eu estivesse com você eu nem notaria que o céu está nublado. Se meu refrigerante terminasse você com certeza me faria ir buscar mais (pra mim mesmo e) pra você. O frio ia espairecer em baixo do seu abraço. Nós provavelmente iríamos ficar dublando as conversas das pessoas que estariam a nossa volta e íamos rir muito disso até chorar. Depois de você eu amei outra pessoa. E ela era incrível, acredite. Eu conheci gente nova, fui pra um monte de lugar que não tinha ido, gostei de muita coisa e desgostei de mais ainda. Mudei com tudo que a vida me forçou a aprender. O trânsito lá fora alivou, assim como eu to aliviado agora de ter tido aquela conversa contigo. Consigo descrever perfeitamente as coisas ao meu redor agora, mas, fechando os olhos, consigo te descrever perfeitamente também. Vejo seus olhos sorrindo conforme a sua boca forma uma lua crescente de baixo pra cima refletindo nos seus lábios que me fazem sentir uma sensação tão maravilhosa indescritível quando eu beijo você que - ufa! - nesse teclado agora nem tem letra pra descrever. Eu sei que vou te ver daqui dois dias (talvez amanhã) e sei que vai me dar um puta nervosismo abraçar você. Mas agora, acho que me sinto bem preparado pra isso. Lembra daquele casal de amigos do meu lado? Agora sentou um pai - que imagino que não via sua filha há uns meses - e sua filha fofinha esfomeada que não para de falar e olhar pra minha cara com uma expressão "que porra ele ta fazendo nesse computador".

Tá frio, tá foda. A bateria tá acabando e preciso ir muito no banheiro antes de encher meu copo de refrigerante e comprar pipoca. O filme deve ser muito bom e confesso que to ansioso. Vou chegar podre em casa pois amanhã vou sair cedo para trabalhar e ainda nem fiz os relatórios que precisava fazer, mas sei que, quando eu encostar a cabeça no travesseiro vou saber exatamente como é seu rosto ainda, não sei o que acontece com essa coisa de gostar dessas pessoas que mesmo longe parece que ta perto de tão enroscada na nossa alma ela tá, mas confesso, a sensação é maravilhosa  - só não é mais do que o seu sorriso me fazendo sorrir.

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